O mundo tem dentes e pode te morder sempre que quiser....
Seja bem vindo

quarta-feira, 2 de dezembro de 2009

Capítulo XIX – O quarto espirito


Olhei para a lâmpada amarelada que pendulava acima do rosto de Justin, assistindo-a mover-se num apagar esdrúxulo e oscilante. Contemplamos teto escuro e o breu, seguidos de nossas respirações amedrontadas. Enfim, depois de me inclinar para mais perto dele, as luzes voltaram ao normal.
Ouvi-o sibilar enquanto me olhava.
- Temos pouco tempo.

Nos levantamos e pagamos a conta.
- O livro está com você? – perguntei enquanto saíamos apressados do Dik’s.
- Tá sim – ele puxou o livreto do sobretudo e voltou a escondê-lo.
Seguimos a pé até chegarmos ao lado movimentado do Santos Dumont. Logo que dobramos uma avenida, ouvimos a buzina de um carro chamar nossa atenção. Nos viramos e Natasha colocou o rosto para fora da janela do pajero.

- Vocês têm uma boa explicação pra isso?
- Oi pra você também – Justin parou de andar e virou-se irritado para a irmã.
- Não me chamaram para o passei por que?
Justin me abraçou pela cintura.
- Não sabia que você gostava de segurar vela...
Natasha ficou vermelha. Eu não me movia, nem respirava, achei muito estranho o que Justin estava fazendo, ao mesmo tempo em que adorava a expressão de raiva que via impressa no rosto daquela garota. Ela me odiava e estava detestando que seu irmão não sentisse o mesmo. No entanto, eu sabia que era só uma encenação.
Mas por que Justin fazia aquilo? Queria deixá-la zangada?
Eu continuei com minha expressão de inércia.
- Tô indo pra casa – ela ficou séria – quer uma carona?
Ele olhou para mim e concordou.
- A Amy e eu queremos sim.
Natasha bufou.
Entramos no pajero.
...
O estofamento ainda tinha o cheiro forte de cigarro. Os vidros escuros nos deixavam invisíveis e quase protegidos. Justin foi na frente, ao lado da irmã, enquanto eu me mantinha muda na traseira. Por que iríamos até sua casa? Ele estava tentando chatear a irmã mais velha? Podia vê-la me furar com os seus olhos azuis furiosos, através do retrovisor. Com certeza me odiava mais.
Chegamos na casa de Justin e Natasha. Passamos pela fachada iluminada por fluorescentes brancas e atravessamos um pátio ornamentado com flores coloridas em inúmeros vasinhos. Natasha nos acompanhou, enquanto Justin não desgrudava de mim. Ela tentava saber o que eu faria lá, mas Justin não respondeu nenhuma de suas perguntas. Depois de não conseguir respostas, enfiou o rabinho entre as pernas e emudeceu.
Chegamos até uma sala linda, decorada com quadros e abajures de vidro delicados. Havia um sofá gigantesco e uma lareira de pedras marrom. Um homem robusto e ressonante dormia numa poltrona no canto da sala.
Passamos por ele e Justin murmurou:
- Esse dorminhoco aí, é meu pai.
- Ele não vai se zangar por eu estar aqui?
Justin riu da minha pergunta.
- Não vai não.
Natasha nos abandonou, com cara de pouco amigos. Trancou-se em seu quarto, depois de bater a porta e pisar fundo. Justin não lhe deu a menor atenção.
Enquanto andávamos até o final do corredor, tentei entender por que Justin rira de mim quando perguntei se seu pai se zangaria com a presença de uma garota desconhecida em sua casa. Pensei... Antes de mim, já deveriam ter passado por lá, várias outras.
Mas o meu caso era diferente.
Chegamos até a porta de seu quarto. Imaginei que poderíamos ficar em algum outro lugar, no escritório no andar de baixo, por exemplo, mas tive receio de dizer isso a Justin. Afinal, ele estava sendo tão bom comigo... Totalmente o contrário do que pensei que era. Senti que poderia confiar nele, o estimava e temia por sua segurança também.
Ele destrancou a porta e nós entramos.
Me deparei com uma cama perfeitamente arrumada e uma gigantesca estante abarrotada de livros. Havia uma janela de vidros claros, coberta por cortinas azuladas. Era um quarto arrumado e agradável, frio e com cheiro de naftalina.
- Pode ficar a vontade.
Justin tirou o sobretudo e fechou as cortinas.

- Seu quarto é... bem organizado.
Ele riu torto.
Eu estava tremendo.

Sentei na beira da cama e me mantive ereta. Justin se prontificou na cadeira da escrivaninha. Estava relativamente longe e eu não entendi por que. Ele ficou calado por algum tempo, olhando as minhas mãos inquietas se moverem sem rumo em meu colo. Depois de suspirar, levantou-se e começou a averiguar um caixa em baixo da cama.
Eu me inclinei e perguntei.
- Quer ajuda?
- Não... Obrigado...
Observei-o.
Tinha que falar o que estava pensando. Ou então eu sucumbiria até a falência múltipla de órgãos!
- A sua irmã ela... Ela me odeia...
- Isso é um bom sinal.
 Não entendi.
- Por que?
Ele olhou pra mim e sorriu.
- Por que você não é igual a ela.
Continuei sem entender.
- Você parecia irritado com ela... Quando ela apareceu – sibilei.
Ele continuou a remexer uns papéis amassados dentro da caixa.
- Nós somos irmãos, mas eu não aprovo em nada o que ela faz com as pessoas. – Justin observou as letras rabiscadas num papel e voltou a amassá-lo com rapidez. – Pensa que não percebo?
Emudeci. Ele sabia que tinha uma víbora como irmã? – Nossa! Que babado...

- Nossa relação se restringe apenas à caronas até a escola, já que tem carro. Só isso, apesar de todos acharem que eu faço parte do grupinho dela... – ele desviou os olhos.
Enrubesci.
- Eu achava isso...
Justin riu.
- Achava?
- Eu te achava um idiota também.
Ele parou de remexer dentro da caixa e me fitou sereno por um longo tempo.
- Eu já fui um idiota. Há um tempo, com uma certa garota... Quando tive a oportunidade de mostrar a ela que eu não era mais, agarrei-a com força.
Estremeci.
- Agarrou a garota ou a oportunidade? – sorri.
Ele riu e não respondeu. Voltou a vasculhar a caixa.
- Quem é a garota? – murmurei.
Justin voltou a olhar para mim. Seus olhos sorriam, mas ele se deteve.
Novamente não me respondeu.
...
Tirou da caixa, uma minúscula sacola preta. Desatou um fiozinho branco que a fechava e tirou de lá um cordão incrivelmente bonito. Meus olhos brilharam involuntariamente. Ostentados e cheios.
- É bonito, não é? – ele o colocou na palma da mão. – É todo de prata, e esses cristais aqui no centro da cruz, são todos verdadeiros. – ele o estendeu a mim.
- É realmente lindo... – admirei.
- E agora é seu.
Atônita, perguntei.
- Meu? Como assim?
Justin se levantou e sentou-se ao meu lado.
- Gastei cinco meses de mesada nessa peça, cacei-a em lugares inimagináveis até encontrar a verdadeira. É um talismã forte contra espíritos, e no momento, quem mais precisa dele é você.
Meus lábios se entreabriram numa recusa.
Mantive-me calada.
- Eles não poderão tocar num fio de cabelo seu, pelo menos por algum tempo, enquanto achamos o túmulo do Ben.

Eu não podia negá-lo.
- Obrigada. – tentei sorrir. – Espero não ser roubada.
Justin se ofereceu para colocá-lo em mim.
Tentei dizer que não precisava, mas ele insistiu.
- Tá...
...
Ele se inclinou para perto do meu rosto e enfiou suas mãos entre os meus cabelos. Enquanto tentava terminar de colocá-lo, olhava para mim de um jeito estranho... senti vontade de beijá-lo, mas me detive por que seria muito ridículo fazer aquilo, naquela altura do campeonato!
Pare com isso, Amy, pare, pare! – berrei dentro da minha cabeça.

Ouvi um estalido e senti o peso do pingente.
 Pronto, já terminou...
Pensei em respirar aliviada, mas Justin continuou imóvel com o rosto perto do meu. Não entendi por que ele estava fazendo aquilo, tentei me afastar, mas não conseguia, no fundo eu não queria. Poderíamos ficar assim a noite toda...
Suas mãos acariciaram meus cabelos por trás, enquanto ele se aproximava dos meus lábios.
...
Alguém bateu na porta.
...
Foi como um tapa na cara. Eu me encolhi e Justin respirou fundo. Levantou-se e foi ver quem era. Virei-me em direção à porta, para sutilmente dizer “oi”. Estava morrendo de vergonha e conseqüentemente estava com o rosto vermelho.
A Natasha apareceu pálida.
- Vocês podem fazer menos barulho?
- Você se drogou muito hoje? – Justin se irritou.
- Cala boca! Manda essa garota calar a boca. – gritou.
Eu não entendi nada, a Natasha tava muito pálida, com a boca roxa e as pupilas dilatadas. E nós, Justin e eu falávamos tão baixo, não teria como ela nos ouvir do seu quarto. Temi o que estava prestes a acontecer.
Me levantei da cama.
- Justin... – sussurrei.
A Natasha enfiou as mãos entre seus cabelos, encolhendo o corpo de uma maneira perturbada.
- Calem a boca, parem de gritar!!
Justin olhou para mim com uma cara preocupada. Eu estava apavorada.
- Meu Deus...
Vi a garota mais popular e prepotente do mundo (o meu) desabar inconsciente. Corri em direção a ela, sem saber o que estava acontecendo. Justin carregou-a até sua cama e saiu para procurar um vidro de álcool no armário do banheiro, pedindo a mim que ficasse de olho em sua irmã.
Sentei-me ao seu lado na cama e procurei seu pulso.
Ela não tinha.
Estava tão fria...
- Meu Deus...
 Passei a mão na testa.
Ela estava morta... Morta... Tínhamos que procurar socorro rápido!
- Meu Deus...
De repente, senti sua mão fria apertar meu braço.
- Deus está morto!
...
Foi um susto horrível, enquanto eu puxava meu corpo para longe daquele ser horrendo. A garota linda e egocêntrica que eu me acostumara a ver, havia se tornado um tipo de demônio. Seus olhos azuis eram agora esferas pretas, secas, sem vida alguma. Sua pele bem tratada estava sem brilho, tal como a pele de um cadáver.
Ela se ergueu enquanto eu me afastava. Em pânico...
- Lembra de mim, Amy... – eu conhecia aquela voz, ouvira ainda naquela noite, enquanto fugia pela estrada de terra.
- Meu Deus... – meus olhos se encheram de medo.
- Deus está morto! – ela esbravejou.
Justin correu até o quarto. Achou minha cara assustada e sua irmã, com um macabro olhar assassino.
- Natasha...
- Esse é o nome da dona desse corpo? – a garota começou a se arranhar e a gritar.
Justin correu até a escrivaninha e procurou uma garrafa transparente.
Abriu-a e jogou em cima do corpo da irmã, que se debatia e se auto-flagelava.
O líquido chiou quando tocou a pele de Natasha, mas ela não se incomodou em nada.
- A água benta não tá funcionando...
- Meu Deus...
Justin teve outra idéia.
Correu até o sobretudo e pegou o livreto. Caçou uma página e iniciou o que parecia ser um mantra. Eu estava paralisada no canto do quarto.
Justin falava em latim.
...
Natasha parou de se contorcer depois da terceira frase. Imobilizada sobre a cama bagunçada, tinha os olhos parados em mim. Ofegava, com um sorriso mal em seus lábios pálidos.
- Eu vou pegar você...
Me encolhi e desviei os olhos.
Ela ainda se contorceu um pouco antes de voltar a si. Fazia uns sons estranhos e parecia embriagada. Suspirou cansada e adormeceu.
Levei minha mão até a boca, enquanto uma lágrima rolava de um dos meus olhos.
Justin parou de entoar o mantra e fechou o livreto atordoado. Foi para perto da irmã e verificou sua temperatura. Ela estava voltando ao normal.
- O que foi isso? – murmurei.
Ele procurou seu pulso.
- Alguma coisa possuiu o corpo dela.
- Um... um demônio? – uni a sobrancelhas.
- Não... – Justin não olhava para mim – Um demônio não sairia assim tão fácil... Foi um espírito.
- Eles podem fazer esse tipo de coisa? – caminhei para perto da cama.
- Podem. Mas isso depende da pessoa em questão. – Justin ajeitou os braços de sua irmã para que ela não ficasse desconfortável. – Minha irmãzinha aqui tem sido má ultimamente... Um coração mal atrai o mal.
Ofeguei.
- Ela vai ficar bem, não vai?
Justin ficou em silêncio. Parou o que estava fazendo e respirou fundo.
Olhou pra mim.
- Agora ela vai.
Agarrei a cruz pesada do cordão e fechei os olhos devagar. Eu era culpada?

...
...
Sentamos no chão, sem saber o que falar um ao outro.

Era como se tudo ao redor, o oxigênio, o raciocínio, nossas tolas palavras, tudo estivesse se quebrando. Olhei no relógio de cabeceira, dez e cinqüenta e cinco. O que eu faria da minha vida? Para onde eu iria? Como tudo terminaria?
Deixei meus olhos caírem no chão.
- O colar protegeu você... – Justin quebrou o silêncio. – Não te machucaram.
Toquei no colar e sorri.
- É...
- Você faz idéia de quem era? O espírito...?
- Não sei... Quer dizer... Não tenho muita certeza...
- Nomes...?
- Acho que foi a Elisa.
- A mulher?
- Sim... – olhei para Justin – Acho que ela está me seguindo desde a estrada de terra.
Ele suspirou e ficou em silêncio.
...
Era ela, então, sentada no meio fio, com a respiração calma e os olhinhos pretos?
Mas a voz parecia diferente... Não era Elisa. Ouvira sua voz fina e praguejante enquanto corria assustada e podia até sentir suas unhas cravadas em minhas costas. Ela era tão má... Meu Deus. Havia mais algum espírito que eu não conhecia?
A silhueta que falara comigo no meio-fio, possuía uma voz mansa e fraca. Não havia tentado se aproximar de mim ou me fazer mal, e olha que era bem fácil. Se eu estivesse um pouco mais calma...
Não era Elisa... Ela havia me perseguido, tinha certeza! Mas não foi sua voz que me disse aquelas duas frases.
Eram dois espíritos diferentes.
- Ben, Sofia, Elisa... – sibilei – existe um quarto espírito, Justin.
- O quê? – ele se ergueu.
- Existe mais um.
...
...
...
Não sei exatamente por que não contei a Justin que vira uma sombra e ouvira sua voz depois de cair na estrada de terra. Fosse isso, talvez, pelo nervosismo e apreensão que eu me encontrava, ou pelo fato de eu não ter dado devida atenção ao fato. Eu não sabia. Mas depois disso, tudo parecia tão bem definido, as vozes, tão diferentes...
Contei tudo a ele.
- Mas, não poderia ser a Sofia? – questionou.
- A Sofia não tem um vocabulário tão extenso, e mesmo assim, a voz ainda era diferente.
- E o Ben? – continuou.
- Não acredito que seja ele... Era como uma voz de criança...
- Você não imagina quem seja?
- Não... – passei a mão na testa – Eu já ouvi essa voz em algum lugar, mas não sei de quem é...
Justin coçou a cabeça.
- Isso é mal...
Eu não tinha tanta certeza quanto a isso, mas parei para analisar.
- O que essa tal voz te disse mesmo?
- “Você não deveria fugir. A saída está perto de casa”.
Se eu não estivesse tão apavorada, poderia ter estudado melhor toda a situação. O que aquilo significava? Era uma espécie de ajuda?

- Mais um espírito pro time – Justin riu. Sabia que estava preocupado demais para demonstrar.
Meu Deus... Aquilo não poderia piorar...

...

...

...

quarta-feira, 25 de novembro de 2009

Capítulo XVIII – O livreto


- Amy? O que houve?

O meu fôlego fugiu de mim. Meus olhos descansaram e eu consegui destravar os meus músculos.

Era a voz de Justin.

Virei para olhá-lo, agora eu me sentia menos perdida.

Não contive o meu alivio, e quando dei por mim já havia colado o meu rosto em seu ombro, com os braços envoltos em seu tronco e os olhos molhando seu sobretudo escuro. Ele demorou cerca de dois segundos para retribuir e me abraçar ternamente. Percebi que ele não esperava algo como aquilo vindo de mim. Eu o havia surpreendido.

- O que aconteceu...?

Sua voz era mansa e preocupada, enquanto eu tentava parar de chorar e soltá-lo, sutilmente.

Não havia o que responder, se tentasse, as palavras surgiriam como pontas soltas, sem rumo, sem motivos. Nenhum dos dois conseguiria entender absolutamente nada e eu ainda ficaria com a maior cara de idiota depois.

...

Consegui tirar os meus braços de seu corpo, agora me mantendo encolhida, com a cabeça baixa e os olhos caídos no asfalto. Justin continuou perto, olhando para mim em busca de respostas. Além da vergonha, eu estava tonta. Zonza. Aos trapos.

Ele chegou perto do meu rosto e sussurrou:

- Vamos, vou te levar pra um lugar seguro.

Justin me fez sentar na calçada enquanto chamava um táxi pelo celular. Eu evitava olhar para ele, mas podia vê-lo me observar oscilante, desviando os olhos para a rua e para mim.

Sabia que o deixava muito mais aflito com o meu silêncio, mas não tinha ânimo e nem energia para contar aquelas coisas a ele. De algum jeito eu devia me manter muda, para não jogar palavras em vão.

O frio penetrava em meus ossos. Me agarrei ao casaco e olhei para o céu.

Menos de três segundos.

...

O siena branco surgiu na rua, Justin fez sinal e ele parou. Depois de cumprimentar o taxista com um aceno de cabeça, Justin foi para perto de mim e se agachou.

Olhou para mim por algum tempo, enquanto eu levantava os olhos para ele.

Foi só um sorriso. Um sorriso consolador a uma garota assustada.

Ele me ergueu a mão e eu a peguei, após hesitar um pouco.

...

Estávamos dentro do táxi, vendo as figuras se distorcerem enquanto passávamos em alta velocidade. Me mantive com a cabeça baixa, sentindo meus cabelos aquecerem minha nuca. Justin olhava para mim, com os olhos fixos e indecifráveis. Talvez esperasse que eu sibilasse algo esclarecedor, que não o fizesse imaginar que a idéia do sal fora uma grande idiotice da sua parte. Talvez ele se sentisse culpado e não conseguisse esperar que eu, enfim, lhe roubasse toda a sensação de culpa, caso estivesse equivocado.

O silêncio instalou-se como uma quarta pessoa.

Perturbador...

...

O estofado era frio e o taxista olhava para nós dois pelo retrovisor interno do veículo. Levemente aturdido, tentando descobrir por que tipo de apuros nós dois estávamos passando. Acredito que milhares de hipóteses surgiram em sua cabeça, olhando tão de perto uma garota abatida, achada numa calçada fria sendo acompanhada por um garoto preocupado.

Suspirei.

O taxista ajeitou o retrovisor.

- Vocês são irmãos?

Olhei furtivamente para Justin, logo depois baixei os olhos e respirei fundo. Era a primeira tentativa de saciar curiosidades. Esperei que meu parceiro de assento nos livrasse de mais perguntas.

Justin tentou descontrair o clima, impondo uma fala mais despojada.

- Somos sim. – olhou para mim em busca de aprovação. Permaneci sem olhar para ele, mesmo vendo perifericamente a sua apreensão mascarada.

O taxista assentiu com a cabeça, um tanto incrédulo. Tamborilou levemente os dedos no volante, desconfiado.

Imaginei que ele fosse ficar em silêncio e não mais falar nada. Justin também, pareceu meio avulso para mentiras, mesmo aquelas mais ridículas e apelativas. Talvez o seu tato estivesse temporariamente inativo. Ele poderia se esforçar e finalmente estragar tudo.

Eu queria apenas chegar a um consenso comigo mesma. Precisava parar de rodar e rodar em torno dos meus medos. Tinha que achar um equilíbrio entre as coisas que estavam me consumindo.

Respirei fundo e amassei os dedos, dirigindo os olhos para os vidros da janela do carro.

- A mocinha parece assustada...

Eu realmente me assustei quando a voz do taxista me puxou para fora dos meus próprios pensamentos. Virei a cabeça bruscamente para olhar a feição que deveria me fitar através do retrovisor do veículo.

Justin riu amarelo.

- Ela foi roubada...

Olhei para o escuro e duvidoso olhar do taxista. Obriguei-o a acreditar em mim.

Ele assentiu com a cabeça.

- Cidade perigosa...

Justin olhou para mim de soslaio.

- E como.

O homem se calou. Que tipo de pecado terrível nós dois poderíamos ter cometido? Soávamos quase inúteis, quase como esboços de gente. Não tínhamos nenhuma aparência incomum e nem parecíamos perigosos. Justin e eu apenas exalávamos a eloqüente sensação de temor. Perturbação. Qualquer um percebia a nossa aflição.

Não sabia para onde estávamos indo, passamos mais devagar pela frente da igreja, vendo suas portas de vidro colorido fechadas. A princípio, pensei que Justin me levaria para sua casa, mas ele nem ao menos entortou os olhos para vê-la.

Olhei para meu amigo de assento, o que estaria pensando naquele momento?

Dez minutos e Justin se pronunciou:

- Aqui, amigo...

O táxi parou. Olhei para fora, vendo uma semi-iluminada fachada de algo que parecia um restaurante. Uni a sobrancelhas e tentei lembrar se conhecia aquele estranho lugar.

Justin pagou o motorista e abriu a porta. Saindo dos meus raciocínios, destravei a porta do veiculo e saí também, ainda ouvindo o leve “boa noite” do taxista.

Parei cerca de vinte metros em frente ao estranho lugar e o observei.

O táxi cantou pneu atrás de mim. Justin estava parado e quieto ao meu lado.

O vento atravessou meu corpo, enquanto nos víamos totalmente sozinhos.

- Que lugar é este? – sibilei.

Justin virou o rosto para mim e sorriu torto.

- Meu antro particular.

Não havia graça naquilo que me pareceu uma piada.

Continuei olhando para as luzes avermelhadas que formavam o nome “Dik’s” no alto de um prediozinho. Havia um conjunto de caminhos estreitos e limpos que levavam até a entrada do lugar. Era silencioso e um pouco escuro depois de uma porta de vidro. Ao redor, alguns carros sem nitidez jaziam parados, todos sendo fixados por um lume fraco. Havia algumas árvores encolhidas por cima de um gramado aparado e sombrio. Rodei os olhos e não achei uma alma viva por perto. Por mais contraditório que pareça, eu me senti melhor. Me senti quase inteira.

Podia fazer uma cara de choro e não pagar de idiota.

- Antes que você me explique alguma coisa, e você vai me explicar – Justin ficou de frente para mim – A gente vai entrar e você vai comer.

Não respondi. Fiquei olhando para ele, tinha que dizer que não conseguiria comer nada. Não queria comer nada.

- Tá legal?

Continuei muda.

Justin tocou meu ombro, num gesto de cumplicidade.

- Tá legal...? – repetiu.

Demorei, mas assenti com a cabeça.

Caminhamos devagar até a porta, Justin a abriu para que eu entrasse primeiro, mas não tive coragem de encarar o que havia dentro do estabelecimento. Não desejava que as pessoas normais lá dentro se assustassem com a minha fisionomia horrenda, e nem queria me sentir ainda pior com a força violenta de cada olhar. Ele respirou fundo, devia estar me achando muito teimosa por aquele recusa. Por fim, Justin tomou a frente e entrou primeiro. Eu o segui, agarrada ao meu casaco, tentando não parecer tão estarrecida quanto eu já era.

Preparei-me para os cortantes olhares, mas tudo que encontrei foram pessoas acídias e fúnebres como eu, semi-enterradas em cadeiras acolchoadas, sussurrando conversas mornas num burburinho inaudível. Parei e respirei. Ninguém nos enxergou.

A luz fraca, alternando para o vermelho e o marrom, mostravam que quase tudo e todos eram engolidos pelo escuro. O ar frio e ao mesmo tempo acolhedor inebriava com um tipo de sono, puxando corpos cansados a um cantinho reservado e aparentemente seguro. Nunca me senti tão bem num lugar público.

Justin tirou minha atenção.

- Vamos sentar, Amy.

Nos acomodamos. Ainda tentei achar algo que me mostrasse que aquele lugar era só uma alucinação calma da minha cabeça, mas não encontrei nada que comprovasse a minha tese. Não sei se o som que nos circundava era algum tipo de canção, mesmo sentindo que ele me levava a perceber uma melodia. Ainda que meus temores estivesse pesando dentro do meu corpo magro, era como se todos ali fossem exatamente como eu.

Respirei o ar gelado e olhei para Justin, com o rosto sério e as mãos cruzadas sobre a mesa.

- Que lugar é esse? – inclinei meu corpo para frente.

O lume amarelado de uma lâmpada minúscula que pendulava acima do rosto de meu amigo, o deixava assustadoramente com uma feição madura. Seu olhar apelativo buscava as respostas no meu, pairando ainda meio longe da minha pergunta.

O vi levantar a mão e fazer sinal para uma mulher no canto do estabelecimento. Imaginei que Justin não me responderia, que até mesmo estivesse zangado comigo por algum motivo que eu não sabia. Recuei e me mantive calada. Ele olhava de soslaio um simplório menu no centro da mesa.

A mulher que chegou até nós, era extremamente peculiar. Tanto por sua fisionomia oca, tanto pelas cores fortes e soturnas que escureciam seu olhar esverdeado. Os cabelos de um louro branco a fizeram parecer exatamente mais branca que eu. Quase não acreditei. Ela não tinha expressão nenhuma.

- O que vão querer?

Não falei nada.

Justin olhou pra mim. Sabia que não esperava nada mais que meu silêncio.

- Traga um chocolate quente e alguns biscoitos de mel.

A mulher assentiu com a cabeça e se retirou.

Cruzei os braços. Não comeria aquilo, não estava com fome.

- Descobri esse lugar sem querer. – Justin quebrou o gelo – Tinha brigado com meu pai, fiquei andando sem ter pra onde ir... Entrei por curiosidade e acabei gostando.

- É estranho... – demorei pra responder.

Justin se inclinou para frente.

- Pensei que pareceria seguro...


Quis dizer a Justin que parecia realmente muito seguro, mas me mantive calada. Respirava o fôlego cansado dos meus pulmões e olhava seu rosto perante o meu. Ele não desviava os olhos, me dando uma nítida impressão de serenidade.

- Vai me contar o que aconteceu?

A voz dele sempre era calma quando me fazia aquelas perguntas difíceis. Enquanto eu tentava não me contorcer ou acreditar que estava sendo espionada por eles, respirei fundo e me inclinei para a mesa. Minhas mãos começaram a tremer enquanto eu buscava um pouco de indiferença.

“Comece do início e tudo fica mais fácil...”.

Aquele consolo medíocre nunca ajudava.


- Não sei... Não sei o que aconteceu... – passei a mão na testa – quer dizer, eu sei...

- Relaxa Amy...

Olhei pra ele e respirei fundo.

...

...

Justin ficou muito estranho. Agitado quando eu terminei de contar os fatos do capítulo anterior. A mulher dos olhos verdes trouxe o pedido e ele sibilou:

- Você precisa comer...

A aparência dos biscoitos era realmente muito boa. Então meu estômago começou a implorar por eles, quase gritando! Olhei, ainda tentei me negar, mas Justin me fitava, e os olhar me dizia para não criar mais problemas.

Acabei comendo.

- Não imaginei que chegaríamos a esse ponto. – ele cortou o silêncio – o sal sempre funcionou com espíritos ruins...

- Eu acho que eles ficaram mais fortes...

- Ou mais furiosos.

Estremeci.

- Sou uma burra mesmo...

- A culpa não é sua, Amy. Se culpar não adianta nada...

- Você vai me ajudar não vai? – grunhi.

Justin se inclinou para a mesa.

- Vou dar tudo de mim pra te ajudar.

Me senti melhor. Depois o olhar dele me incomodou.

...

- Como a gente começa isso? – perguntei.

Ele respirou fundo.

- Esse assunto sempre me instigou. Antes de conhecer você eu já lia sobre espíritos, possessões, maldiçoes, coisas do tipo. Sempre imaginei que talvez isso pudesse me servir, ou que eu poderia fazer algo com base no que sabia sobre o assunto. Bom, quando vi a marca no seu pulso, pressupôs dois caminhos pra você: Ou você morreria ou então se livraria da maldição. Mas então, você parecia tão assustada, e eu percebi que você não sabia o que fazer.

Ouvia tudo sem piscar.

Ele continuou.

- Foi difícil te convencer, garota. Mas se eu desistisse... Então, depois que você me deixou ajudar, já que isso é o mais importante, fui à biblioteca da escola.

- Na biblioteca da escola?

- É... Por incrível que pareça, eles têm muitos livros sobre bruxaria, atividades paranormais e sobrenaturais. Talvez seja para alguma aula de história mal elaborada, não sei dizer. Sabia que tinha visto a marca no seu pulso, em um dos livros de lá, só não lembrava em qual. Passei a tarde pesquisando, até que eu o encontrei. – Justin puxou de dentro do casaco, um pequeno livro, com uma grossa capa de couro envelhecido. Havia rabiscos confusos e biformes na frente, e umas palavras estranhas no verso.

- Isso é... Latim?

- Algumas palavras sim, mas poucas, consigo entender algumas coisas...

- Você sabe latim?

Ele enrubesceu.

- Um pouco.

Justin abriu o livro e pôs-se a vasculhá-lo. Eu o espreitava, sentindo o ar do Dik’s me abraçar friamente. Olhei para o lado e havia um homem trincado, contemplando o vazio. Logo Justin chamou minha atenção.

- Aqui está! – ofereceu-o a mim.

Puxei a manga do casaco e comparei os desenhos... eram idênticos.

- Então...

- É uma maldição com certeza.

Passei a mão na testa e tentei me manter calma.

- Relaxa Amy...

Ele não tinha outra frase consoladora?

- Aqui diz que alguns espíritos, dependendo de sua força psíquica, podem ferir e até matar pessoas. Marcam o corpo de suas vítimas para que elas não se percam ou tenham a possibilidade de fugir.

- Aí diz o motivo?

- É só cruzar o caminho deles e você já está condenada.

Baixei a cabeça.

Justin olhou para mim por alguns segundos.

- Hei Amy... – olhei para ele – Isso não significa que você seja ruim, ou que mereça morrer... Esses espíritos são movidos por seu ódio cego, onde eles vem em qualquer um o causador de seu sofrimento...

- Eu vou morrer, não vou?

Justin olhou firme pra mim.

- Só se for de velhice.

Acabei rindo.

...

- O sal deveria te manter a salvo deles enquanto eu terminava de pesquisar, mas eles devem estar fortes demais...

- E quanto ao meu pai? O que está havendo com ele?

- Mais uma vítima... É bem provável que eles estejam manipulando seu pai. Brincando com as sensações e com as atitudes dele.

- Acho que ele quer me matar também.

- Ele não quer... Os espíritos que querem.

- Ele corre riscos?

- Todos correm.

...

O relógio se aproximava das nove e quinze da noite.

Justin tinha os olhos colados no livreto.

Eu tentava pegar algo no ar.

- Temos uma chance... – ele sibilou.

- Qual? – acendi os olhos.

- Você sabe onde Ben está enterrado?

Congelei.

As luzes do Dik’s começaram a piscar.
...
...
...

segunda-feira, 9 de novembro de 2009

P.s. do dia... o.O


Curioso pra saber o final do Diário?
Têm acontecidos coisas realmente estranhas por aqui..... Eu queria muito postar o capítulo seguinte, mas não consigo.....
Quase eu desisto de concluir o Diário, mas vi que me deixar calar por algumas bobagens nao vale a pena.
Ah, o Hugo também tem culpa por eu continuar ^^ Meu amiguinho!!
hehehehehe
Prometo continuar logo, é só o tempo de essas "coisas" aqui pararem de encher o saco. Voltem pros seus túmulos e calem a boca.
XD

bjs ao povo que continua. E se alguém tiver convite do novo orkut por favor me manda!!!!!!!!!!!!!!!!

inté galera. Durmam bem...... Se conseguirem dormir.........

segunda-feira, 14 de setembro de 2009

Capítulo XVII – Mancha Negra

Não me lembro bem o que me acordou. Mas meus olhos estavam muito secos quando os abri. Eles ardiam. O céu estava escuro e o vento esvoaçava as cortinas perto da cabeceira da minha cama. Eu me sentei e ouvi o som de um carro chegando.

- Papai...
Queria olhar para ele, ser um pouco gentil. Mesmo que tivesse que sair do quarto, atravessar o corredor e descer. Minha Nossa! Aquilo me deixou em pânico!! Mas a pena... A culpa por sentir que o havia abandonado... Aquilo falou bem mais alto.
Corri para o banheiro e escovei os dentes. Dei umas leves batidinhas nas maçãs da face para me dar um ar mais saudável, molhei o rosto e tentei sorrir.
Que droga... Eu continuei horrível.
Vesti o casaco que deixara jogado no chão e parei, em frente à porta.
Péssima hora para desistir, era como se houvesse uma parte de mim do lado de fora. Ela me chamava, ela precisava de mim para sobreviver. E como eu, ela estava morrendo de medo também.
Respirei fundo e estreitei os olhos. Sem dar nenhum passo a mais, ergui a mão em direção à maçaneta...
As luzes começaram a piscar.
Eu olhei para o teto escuro, para as fluorescentes brancas e sólidas. Implorava para que não se apagassem.
Elas voltaram a piscar novamente, fazendo um tipo de zumbido não muito alto. Irritante.
...
Eu me mantive congelada. Queria me esconder em algum lugar, ligar para alguém e pedir que viesse até mim. Alguém para eu poder olhar e perguntar: “Você viu isso? Ó meu Deus, eu estou morrendo de medo!”
Mas não. Não havia ninguém lá. Ninguém confiável, quero dizer.
...
As luzes piscaram com mais força e rapidez logo em seguida. Apavorada, corri para o criado mudo e peguei o crucifixo, enrolando-o entre os dedos. Meus olhos pediam socorro, mas eu me mantive calada.
Poderia ser um simples problema na fiação da casa, uma queda de energia comum. Mas não... Exatamente não. Não era bobagem nenhuma acreditar que eram eles. Eles. Estariam com raiva por eu ter impedido sua entrada em meu quarto solitário?
...
Apertei a cruz com mais força, meus lábios se mexiam, mas não sei qual oração eu recitava. Só estava lá, falando, congelando.
Ainda de pé, eu olhava a porta, me perguntava se era uma boa idéia sair.
...
As luzes não se decidiram. Continuaram oscilando, ora me deixando no breu, ora me deixando no claro. De qualquer forma, não pude fazer nada. Estava de mãos atadas.
Olhei para a janela de vidro e pensei em como descer por ela.
Depois eu ia até o carro do meu pai, fazia ligação direta e fugia.
...
Fugia? Não, mas para onde?! Aquela era minha casa!!
Fiquei confusa, uma lágrima caiu de um dos meus olhos.
...
Abaixei a cabeça e apertei o rosto.
Uma batida violenta e desproporcionalmente alta soou em minha porta.
Não como a batida que ouvira durante a tarde, agora era realmente mais furiosa e obstinada. Dei um passo para trás e olhei para a madeira. Muda.
A batida se repetiu por cerca de três vezes, enquanto as luzes piscavam e eu tentava não desmaiar de pavor. Após limpar o suor nervoso que escorria por minha testa, ouvi a voz do meu pai do lado de fora.
- Amy... Amy abra a porta Amy...
Eu não respondi, mesmo que as palavras quisessem se atirar da minha boca. Tentei respirar calmamente.
Ele continuou.
- Filha...? Filha você tá aí? – sua voz quase ficou doce. – Ó meu Deus... O que está acontecendo comigo?... Por favor, abra a porta... Ajude-me!
Eu não me movi.
Forcei-me a ignorá-lo.
Ficou silêncio e a batida se fez no andar de baixo, mais precisamente na sala. Não sabia se era meu pai quem realmente pedia socorro, mas consegui caminhar para perto da porta. Queria ouvir ou imaginar o que estava acontecendo no corredor.
Escorei o ouvido na porta e esperei.
...
Havia algo resfolegado. Cansado e com cheiro de bolor. Fiquei ali por cerca de cinco segundos, até a batida violenta e furiosa me lançar para longe da porta.
- Amy! Abra a droga dessa porta!
Era uma voz grotesca.
Tapei a boca para não gritar ou acusar a minha presença, mesmo que fosse bem óbvio eu estar escondida dentro do quarto. Só sentia que não deveria fazer nada estúpido, tinha que esperar aquilo passar, esperar que esquecessem de mim e do sal.
Eles não entrariam...
Entrariam?
...
Justin logo chegaria. Sim, às sete e meia. Secaria os ponteiros do relógio com os olhos, enquanto eles giravam, abandonando aqueles intermináveis segundos. Que não iam.
Olhei para o relógio ao lado da cabeceira da cama... Sete e sete da noite.
Continuei olhando para os ponteiros, queria sentir que meu corpo despencava e que minhas pálpebras se abriam. Enfim, era tudo um terrível pesadelo. Eu estava saindo de um péssimo cochilo.
Não houve nada.
...
Eu ali, com os olhos transportados e maleáveis de tanto implorar, pude sentir o oxigênio ao meu redor cair e quebrar-se no chão. Tudo ficou temporariamente morto por quase um minuto. Não consegui respirar e nem me mover. Tentava gritar de uma vez por todas, mas não, não dava pra puxar fôlego. Era como se estivessem apertando os meus pulmões. Como se estivessem tapando a minha garganta.
Foi quando um arrepio quente me fez contrair os músculos. Um silvo inaudível saiu da minha boca e as minhas pupilas se dilataram. As luzes se mantiveram apagadas por completo, e a lua grande e lustrosa no céu negro iluminaram o quarto como um farol distante.
Era a hora da aurora.
...
Um sopro gelado e cortante soprou entre todos os cômodos da casa. Pude ouvir o seu flutuar fantasmagórico me procurar e gemer o meu nome. Me mantive imóvel, com os olhos na porta. Não. Eu não queria estar certa. Eles não entrariam.
Tudo era relativamente sombra, sem muita cor. Todo o papel de parede alaranjado havia desbotado. Sem mais som, o sopro alcançou o corredor, vindo de encontro à minha porta. À minha proteção.
Foi o meu nome e aquele sopro que sacudiram as partículas de sal, trazendo-as para dentro do quarto, por baixo da porta. Tudo que eu acreditava me deixar mais segura, havia acabado de ser expelido, sem esforço nem problemas. Os grãozinhos minúsculos foram se separando uns dos outros, formando uma desengonçada e esporádica marca branca no carpete.
Dispersa e inútil.
...
As luzes se acenderam com bastante força nesse momento, a do banheiro não suportou a alta carga de energia a acabou por estourar. Tomei um grande susto, girando o corpo para olhar a escuridão sobre os azulejos. Não me fizera ao menos o favor de ter mantido a porta do banheiro fechada.
Meus pés se mexiam num impulso de fuga, mas por eu não saber que tipo de ameaça maligna eu encontraria do lado de fora, segurei-me.
Tentei não tremer nem chorar.
...
Enfim, as lâmpadas voltaram ao normal. Não brilhavam mais num prenúncio de agonia, nem se afligiam em submersão às trevas. Tornaram-se luzes acesas e indiferentes, presas ao teto e ligadas em fiações antigas.
Permaneci na mesma posição. Olhando o escuro do banheiro, esperando que algum deles rastejasse para cima de mim.
A princípio, nada de extraordinário aconteceu. Pelo menos eu achei que não.
Mas aí, eu comecei a observar melhor...
A penumbra do banheiro se tornava mais densa. O escuro ia consumindo os fracos vestígios de claridade. Logo eu uni a sobrancelhas, vendo o escuro tomar a porta e escapar para as bordas das paredes, perto da escrivaninha.
Tapei a boca e fui em direção à porta. Enfrentaria o corredor.
...
As luzes começaram a oscilar novamente, enquanto eu tentava achar coragem para sair dali bem rápido. Olhei para a porta, ouvi o sopro e senti o cheiro horrível de bolor espreitar-me após a espessura da madeira. Não! Não dava pra ir por ali!!
Aí olhei para o banheiro... Incrivelmente, aquele tipo de mancha negra havia recoberto toda a extensão dos meus livros. Toda a parede do lado direito.
Mesmo quando as luzes clareavam, a escuridão se movia e se propagava como uma presença. Não se desfazia e nem parava.
Logo me alcançaria.
...
Estava totalmente cheia de medo, por um momento eu nem senti mais os dedos das mãos.
Meus pés formigavam e minhas pernas tremiam. Tive ímpeto de ficar parada e esperar o castigo, sem nem tentar uma negociação absurda. Porém, lembrei-me da janela e da grade de flores secas e espinhosas que se estendiam até o andar de baixo.
Minha mãe passou como um reflexo na minha cabeça. A lembrança dela sorrindo e arrumando as flores na grade me bateu com um tapa.
Era raro eu lembrar dela daquele jeito, com o rosto tão nitidamente bem desenhado e vivo.
Era diferente, bem diferente de quando eu olhei para sua palidez impressa na face, enquanto ela dormia apertada no estofado do caixão.
...
Nem tive tempo, quando dei por mim já estava correndo até a janela emperrada, forçando com toda as energias, implorando um leve ou brusco movimento de compreensão. Não deixaria de forçá-la, mesmo que a sombra me engolisse e acabasse comigo, eu ainda estaria agarrada ao trinco da janela.
A sombra vinha calma pelo papel de parede, engolindo as minhas fotografias sorridentes de uma família feliz, os porsters do Nirvana e do Linkin Park. E era como se dentro de seu fusco, houvesse um sorriso cruel e assassino, desejando faminto, consumir o meu medo. O carpete também ia desaparecendo, formando agora um lago negro e perigoso.
Eu não me afogaria nele.
...
Meus olhos com certeza gritavam, tanto que eu podia ouvi-los berrar dentro da minha cabeça. Se em algum momento eu precisei de força, o momento era aquele.
As pontas dos meus dedos doíam muito, mas se eu parasse de tentar abrir a janela, aí nem ao menos eu teria chances de ir embora dali. Claro que se eu conseguisse, havia a possibilidade de eu pisar em uma tábua podre e cair como um bloco de concreto, numa morte lenta ou numa contusão grave.
Não sei exatamente como eu conseguia manter os olhos abertos, estava em pânico, suando frio, mas ainda desperta.
Forcei mais um pouco, enquanto olhava a sombra há menos de um metro e meio dos meus sapatos. Já me preparava para a dor da captura quando subitamente, a janela se moveu para cima.
...
Os vidros embaçados e sujos de gordura ainda se recusaram mais um pouco, porém, não me detive e empurrei com mais força. Logo eu senti o vento fresco e gelado da noite tocar os meus cabelos, numa fresta não muito grande. Estiquei a perna e tentei me equilibrar nas telhas de barro, fazendo um terrível esforço para não cair em cima das pedras amontoadas bem embaixo da minha janela.
Olhei a madeira enegrecida da grade e me agachei. Segurei numa das telhas e desci o pé até achar algo sólido. A sombra já alcançava a janela.
Depois eu achei um ritmo para descer. Uma das ripas da grade rangeu, mas eu fui mais rápida e consegui passar por ela. Enquanto ofegava e tentava manter as mãos firmes, olhei para baixo e agradeci por faltar menos de dois metros.
Acho que quase sorri, se não fossem as lágrimas...
...
Enfim, dei um salto e caí em cima do barro, ao lado da pedreira.
Não sei se as minhas roupas se sujaram, pois quando mal toquei o chão, me lancei a correr para longe da casa. O portão estava aberto, passei por ele e alcancei a estrada de terra.
...
Estava tão apavorada que nem lembrei que havia um carro na garagem, muito menos que eu sabia fazer ligação direta e dar algumas marchas.
Aulas inúteis do verão passado.
...
As árvores eram um show explicito de terror. Bruxuleantes e negras, como monstros escusos no entardecer. O céu escuro, com a lua aprisionada a ele e algumas estrelas cintilantes, me atiçaram a não parar de correr. Eu estava apavorada, mal consegui raciocinar o que estava fazendo, tudo que por ventura surgisse na minha frente, seria atropelado e pisoteado por mim.
Algo uivou no meio do mato...
...
Não parei, acho até que aumentei a velocidade. Não imagino de onde eu tenha tirado tanta rapidez, afinal, eu sempre fui tão lerda! Mas estava indo, não sabia exatamente para onde...
...
Quanto mais eu avançava, mais o medo em mim aumentava. Tanto que eu mal pude notar o buraco no meio da estrada. Acabei enfiando o pé nele e despencando numa queda ridícula e dolorosa.
Não era um buraco grande, mas com certeza era fundo. Ainda com meu rosto colado na terra, mantive os olhos assustados e mariscados de choro. Se eles estivessem perto, conseguiriam me pegar sem problemas. Quis me encolher e esperar por eles, mas eu nem consegui me mover.
Foi uma respiração calma no meio-fio que me tirou da letargia.
Larguei meus olhos vencidos sobre a silhueta sentada e sem graça no canto da estrada. Quem quer que fosse, já me tinha em mãos. Eu acreditei que tinha.
...
Dois olhinhos pequenos não olharam para mim. Não com o medo que eu olhava para eles. Flutuaram até mim como uma pena.
- Você não deveria fugir.
Respirava ofegante, eufórica. Mal juntei as palavras, elas não fizeram sentido nenhum na minha cabeça. Depois os olhinhos se fixaram em mim e me fizeram tremer.
- A saída está perto de casa.
Aquilo me chutou e cuspiu em meu rosto. As palavras e a energia delas. Minhas mãos tremiam enquanto eu assanhava a terra com as pernas. Morrendo de pavor! Evitei gritar, se tivesse feito isso, acho que seria bem mais fácil me descobrirem. Eu só precisava continuar fugindo, fugindo!!
Continuei a fuga, agora tão alerta para a estrada e as folhas que se balançavam com vento, quanto um animal arisco. Meu peito estava apertado e os meus pés doíam. Aquelas sensações todas estavam soltas dentro de mim, sacudiam-se e queimavam o meu estômago.
Meus ouvidos estavam abafados e a minha cabeça doía.
...
Continuei me arrastando pelo meio da estrada, até ouvir alguém chamar minha atenção. Era uma voz fina e praguejante. Uma voz feminina. Como se me perseguisse, sentisse o meu cheiro e o meu medo. Podia senti-la olhar a minha nuca, puxar o meu cabelo e me esbofetear.
Apesar de olhar para trás e não ver ninguém, eu ainda sabia que aquela voz me espreitava. Sabia que estava a poucos passos atrás de mim. Foi estranho eu sentir tanto pavor, quis acreditar que era tudo uma alucinação violenta da minha cabeça.
De alguma forma, porém, tinha certeza de que ela já me conhecia. Sabia que a mulher que chamava o meu nome havia esperado tempo o bastante para me encher de pânico. Havia rondado todo o aquele tempo, escolhendo o momento perfeito para dar o bote.
...
Agora eu podia ver as luzes da rua principal, junto com as silhuetas mecânicas dos carros na penumbra. O meu coração badalava como um pêndulo desconcertado, eufórico e cheio de horror. Pulava e gritava, podia senti-lo doer e tremer. Os meus olhos tentavam achar consolo, algo que brilhasse e pudesse aquecê-los. Algo real e sóbrio.
Estava bem frio, mesmo eu estando dentro do casaco. O vento gelado furava as maçãs do meu rosto.
Meu estômago rodava.
...
Continuei correndo até mais perto da rua, pedindo que conseguisse ter energia para ir além dali, há algum lugar mais seguro e distante. Bobagem, porém, eu sabia. Estava fraca o bastante pra cair morta no asfalto. Poderia dar a eles uma honrosa vitória.
Nós a matamos.
...
Bem, ainda não.
...
Surgi no meio-fio da rua principal, vendo a noite iluminar-se com os postes amarelados e os carros apressados atiçarem uma brisa quente. Puxei as mangas do casaco e tentei olhar o caminho à minha frente. Tinha os olhos perdidos e a mente perturbada. Havia parado de correr tão bruscamente! Nem tomara um pouco de fôlego.
Ia para o lado populoso do Santos Dumont. Devia achar um lugar para organizar as idéias. Tentar achar uma solução temporária.
E talvez, quem sabe eu tivesse coragem de ir até a casa de Justin, olhar para ele implorar por ajuda.
Meu pai, minha avó, aquela casa... Tudo parecia latejar dentro do meu cérebro. Como eles estariam? Será que ainda respiravam?
...
Baixei os olhos e apressei os passos.
Meu corpo arrepiou-se tenebrosamente.
Uma mão gelada tocou o meu ombro
Aflita...
O quê?
Tentei deixar os olhos abertos, tentei continuar presa ao meu corpo.
Não olhei para trás.
Eu nem respirei.
...
...
...

sexta-feira, 4 de setembro de 2009

Capítulo XVI - O sal na porta

Foi só o tempo de olhar ao redor. Os arbustos e o muro.

Adoraria ter um relógio para ver as horas. Mas não. Eu não tinha relógio algum.

Olhei para o céu e havia uma nuvem sem forma. Por entre o nublado cinzento e os raios do sol. Aquela náusea estridente me consumindo... Sem oportunidades de melhoras aparentes. Tentava achar uma maneira de simplificar todo o resto das coisas. Tudo de um jeito que pudessem caber no pouco tempo que nos restava.

Justin movimentou a cabeça para chamar minha atenção. Sabia que logo ele me engoliria com suas perguntas, bem depois que o deixasse satisfeito ou muito bem informado. Comecei a imaginar como ele poderia me ajudar. Como? Tirando a sensação de não estar totalmente largada e invisível no mundo, Justin não fazia grande coisa.

Era uma mão aberta, mas ainda sim um pouco vazia.

...

Eu resumiria as coisas.

- No dia seguinte meu pai não me esperou para tomar café. Eu estranhei, afinal, deveria ouvir um bom sermão. Mas não. Nada. À noite nós jantamos juntos, porém, a única coisa que ele me disse foi estar muito decepcionado comigo. – dei uma pausa, era como se eu estivesse vendo aquele rosto triste olhar para mim de novo. Me olhar sem aquela coisa ruim com a qual ele me enxergava agora. – Acho que essa foi a última vez que... Bom, que ele era ele mesmo. Na escola, a Natasha e a Karen me olhavam diferente, ficavam cochichando. A Natasha queria rir, mas a Karen não. Não nos primeiros dias. Como a Lucy estava de castigo, eu fiquei meio na minha, pra mãe dela não brigar mais com ela por estar na minha companhia. Fiquei observando as duas... Como eu não havia feito o que a Karen havia mandado no dia do cemitério, imaginei o que supostamente aquilo afetaria. Se afetaria. A principio eu me neguei a ir falar com ela, afinal, minha cara estava totalmente jogada no chão, arrastada na lama. Mas depois do primeiro pesadelo, eu acabei tomando coragem e fui. Cheguei dizendo oi. Elas riram de mim. Eu fiquei calada, só consegui falar depois de engolir minha vergonha a seco. Perguntei se Karen sabia o que havia acontecido naquela noite, depois perguntaria se eu havia estragado realmente tudo. Era só o tempo de manter um contato social secundário.

Justin estava sério e olhava concentrado para mim.

Prossegui:

- Ela foi bem direta. Disse que eu tava ferrada e simplesmente me deixou plantada no pátio da escola. Achei aquilo um desaforo, fiquei com raiva e também fui embora. Agora eu é que não queria mais pertencer àquele grupo. – uni as sobrancelhas. – ainda não estava com medo. Não totalmente. Só sabia que havia sido uma completa idiota. Grande perda de tempo sacrificar a confiança do meu pai naquela porcaria. – tentei não aumentar meu tom de voz – não levei a sério a resposta de que eu estava ferrada. Aliás, ferrada eu já era, pra mim as coisas não poderiam ficar pior. Eu achei que não poderiam... Bem, depois tudo ficou realmente estranho. Tive pesadelos horríveis nas duas semanas seguintes, acordava assustada e congelando no meio da noite. E sentia medo... Meu pai simplesmente parou de me dirigir a palavra, foi ficando distante, irritado... E os seus olhos mudaram também. A minha avó foi a única que continuou na mesma, mas ela é doente, esclerosada. Nunca me faria mal... eu acho. A maior parte do tempo eu esperava ser surpreendida por um rosto na penumbra do quarto. Um rosto e um grunhido de raiva. Foi quando eu deixei de apagar as luzes do meu quarto.

...

Me calei, com os olhos presos ao chão. Aquilo já não bastava? Agora ele poderia dizer que havia solução para tudo! Tudo! Ó meu Deus, eu ficaria tão grata a Justin!! Ele poderia acabar com tudo, eu me sentiria mais leve.

...

Ele não falou nada por cerca de dois minutos. E acho que esperava uma melhor resolução dos fatos, uma adequada e mais detalhada explicação. E não. Eu não havia sido muito boa. Sabia que não havia sido, mas esperaria uma pista dele para tentar melhorar. Ou então nada. Ele poderia aceitar aquele lixo. Justin poderia ser gentil.

- E quantas vezes o seu pai bateu em você...?

Quis sorrir. Ao menos não havia escutado um “Pode continuar, Amy”. Aquilo já não era suficiente. A pergunta com certeza caiu melhor. Melhor, eu só precisava respondê-la, depois eu me trancava de novo. De novo.

A agressão havia sido tão evidente?

- Uma. – imaginei o motivo de ele ter convicção ao perguntar.

- O seu rosto ficou bem machucado...

- Deu pra ver, foi? – me encolhi.

Justin se encurvou para achar os meus olhos:

- Eu percebi.

Assenti com a cabeça. “Alguém percebeu? Nossa, que estranho...” – pensei.

- Então é isso: você participou de um ritual e quebrou as regras?

- É...

- Depois vieram os pesadelos e o comportamento estranho do seu pai...?

- Isso.

Justin assentiu com a cabeça e falou, depois de pensar um pouco:

- Visões?

Demorei a entender.

- Visões? – repeti.

Ele juntou as mãos e explicou:

- Você voltou a ver os espíritos outra vez...? Tem tido algum tipo de alucinação?

Estreitei os olhos e apertei levemente os lábios. Confirmar aquilo me colocaria no posto de louca?

- É... Eu acho que sim... – virei-me para frente e passei a mão no cabelo. Constrangida.

Ele quase sorriu:

- Não precisa ficar com vergonha.

“Droga! Ele percebeu!”

- Não tô não... – eu realmente fiquei séria.

Justin deteve seu sorriso e desviou os olhos.

Sibilou:

- Teimosa.

Eu poderia me defender, mas com certeza eu ficaria ainda mais vermelha. Preferi fingir não ter ouvido nada.

Ele retomou o interrogatório:

- E como você tem dormido?

Eu diria que bem. Mas ele perguntaria como. E lá surgiriam os remédios. As pílulas avermelhadas.

Tentei escapar pela culatra:

- Tenho dormido.

- Bem ou mal?

- Isso importa?

- Eu perguntei primeiro.

- Custa responder a minha pergunta?

- Por que você não é educada e responde a minha?

- Tá bom, chega! – quase berrei – eu tomei uns calmantes pra dormir melhor! Pronto!

Justin ficou olhando para mim com os olhos meios arregalados e as sobrancelhas levemente arqueadas. Não. Eu não gostei daquele olhar.

- Mau sinal.

Ah, não! Ele poderia mentir e rir do meu papel ridículo! Por que me deixar com mais medo? Olhei para Justin com o rosto meio contorcido.

- O que significa “mau sinal”?

Ele respirou fundo. Desviou os olhos e fitou um arbusto seco perto do muro. Não... Sem contato visual. Isso sim era um mau sinal. Um péssimo sinal. Seria bem pior se eu me movimentasse para olhá-lo, para chamar a sua atenção. Como eu encontraria aqueles olhos? Talvez o susto ou o medo me deixassem completamente sufocada, com adrenalina demais percorrendo o meu corpo.

A única coisa que fiz foi abraçar o corpo e descansar os olhos nos meus sapatos. Sem girá-los nem deixá-los ficarem aflitos demais. Quieta, eu abrigaria a resposta que ele procurava maneiras de deturpar, até que ela ficasse ao menos leve. Ao menos suportável. Por que tantas formas de diminuição da dor? Ah, mas eu sabia... Sabia que não tinha estômago para tanto. No fundo eu desejava que ele a deixasse muito, muito leve para mim.

Eu não interferiria em seu silêncio.

...

- Você precisa parar de tomá-los.

A resposta me tirou de um tipo de sono. De olhos fechados e enrijecidos. Como? Bem como se dorme e não se sonha. Pensa-se. Entra nos próprios pensamentos, se enche deles até perceber que perdeu os sentidos.

Lancei meu olhar perdido até Justin, vendo-o franzi a testa e olhar na minha direção. Pediria para ele repetir a resposta, mas depois de ouvi-la se desenrolar em minha cabeça, consegui decodificá-la.

E ela não me deixou nem um pouco satisfeita.

- Por que isso é um mau sinal? – indaguei.

Ele respirou, não fundo, mas ainda pude ouvir o ar sair de seus pulmões. Esperei uma segunda e mais compensadora resposta. Uma coisa a qual eu pudesse olhar fixamente e aprender a domar. Fosse o que fosse.

- Eles só precisam de uma brecha... Uma fenda minúscula pra te derrubar. – Justin não desviou os olhos – Os remédios te deixam fraca e indefesa... Enganam os seus sentidos.

...

Aquilo foi suficiente. O bastante pra eu me manter calada enquanto o sinal da escola estrondava no pátio. Libertava os alunos. Vi-me levantar com os olhos caídos e os punhos amarrados a uma angústia morosa. Ela apertava, arrastando-se pesadamente entre as folhas dos arbustos. No meio de todos, eu ainda continuava presa e amuada.

Justin acompanhava os meus passos, alternando os olhos ora para mim, ora para o caminho ao portão. Ambos pensávamos em silêncio, mas nos mantínhamos ligados por um mesmo intuito. Precisávamos preparar as palavras, após aquele quase interminável julgamento.

Eu imaginava o quanto havia facilitado o meu declínio, olhando quase que de frente, a minha má conduta. Tão inconseqüente... Mas ainda percebia um rascunho de inocência na minha culpa. Havia me destruído, não por completo, apesar de contemplar os meus pedaços indo embora de mim.

Não me passa na cabeça o que Justin pensava. Não exatamente. Sabia que eu devia estar no meio, eu e os meus problemas. Dentro do azul dos seus olhos quase frios, soava como uma lamúria, o meu nome. Refletia-se transparente e assombreado a marca em meu pulso.

...

Não havia nada que eu pudesse falar. Claro que havia palavras vazias que eu poderia colocar para fora. Mas não. Eu não queria gastar energias naquela perda de tempo. Respirei e guardei fôlego. Segui o caminho de casa.

Ainda olhando para dentro de mim, em busca de alguma luz acesa, notei os passos de Justin ao meu lado. Foi quase que um susto senti-lo andar rastejante, como um suporte móvel e silencioso. Se eu caísse ou me jogasse do penhasco dos meus medos, com certeza ele estaria lá. Ou para observar a minha idiotice, ou para me abraçar e me levar a um lugar seguro.

O que as duas coisas tinha em comum?

As duas sobreviviam por pena.

Dó. Compaixão.

...

Já estávamos perto da estrada de terra quando tive o impulso de perguntar.

Hesitei, mas consegui:

- Por que você tá me acompanhando?

Não percebi alteração nenhuma em Justin, ele continuou com o mesmo humor de sempre.

- Primeiro: Por que aqui é um lugar perigoso. Segundo... – ele deu uma curta pausa – Preciso saber como exatamente te ajudar.

- Você ainda não faz idéia? – não pude evitar o nervoso em minha voz.

- Calma, calma... – Justin abrandou seu tom – Só não quero que nada pior aconteça.

Olhei para frente e continuei andando.

Esperei ser tomada de coragem novamente, para enfim sondá-lo.

- Mas você vai me ajudar, não vai?

Justin virou o pescoço, fitando-me com um sorriso torto e os olhos cheios:

- Claro que vou.

...

Os vinte minutos de caminhada pareceram dez segundos. Logo eu me vi em frente à minha casa, rente a varanda e a tinta descascada da fachada.

Parei e voltei-me para Justin. Enfiei as mãos nos bolsos do casaco e olhei para seu rosto. Pedia que ele me dissesse algo. Uma alternativa, uma saída. Continuei muda.

Ele olhou para mim, mas dessa vez havia chances acesas dentro dos seus olhos.

E sim, eles me deixaram mais calma.

- Faça exatamente o que eu disser...

...

...

...

Entrei em casa e respirei fundo. Justin já deveria estar passando do portão. Pensei em ir até a janela para olhá-lo, mas não. Eu nem tinha razão para tal coisa. Decidi cumprir seus pedidos, pegar um pouco de sal na cozinha, subir até meu quarto e jogar o sal na linha horizontal do chão, rente à minha porta, pelo lado de fora. Como ele havia dito.

Depois tomaria um demorado banho quente...

E quem sabe, se eu conseguisse, deitaria em minha cama para um longo cochilo.

À noite, mais precisamente às sete e meia, eu o esperaria. Ele e o plano; mais alternativas para desfazer as burradas por mim cometidas.

...

Logo eu achei a cozinha em silêncio. E a comida quente no fogão. Era o dia da Márcia fazer a faxina, com certeza ela deveria ter aprontado o almoço. Na geladeira também deveriam ter potinhos com os dias da semana escritos. Depois algum de nós terminava de preparar. Meu pai ou eu...

Peguei um pires e enchi de sal. Procuraria minha avó, mas seu quarto estava escuro demais. Preferi deixá-la em seu “sono”, sem mesmo ir até mais perto para fechar a porta e ocultar a penumbra dos meus olhos.

Subi para o andar de cima, fazendo uma silenciosa prece.

...

Neguei-me a aceitar a batida abafada na porta do sótão. Agora que eu parecia tão mais acomodada e segura, sem a dor no pulso ou o enjôo no estômago. Por que logo aquilo? Parei de súbito, mas não me mantive imóvel por mais de três segundos. Apressei os passos até a luz acesa no quarto no fim do corredor, lançando-me para dentro e trancando a porta.

Estava bem cansada, tanto que foi difícil conter a euforia do suor gelado que escorria da minha testa. Ainda olhei para a porta fechada por cerca de dois minutos, esperando ter um pingo de ousadia para abri-la novamente e jogar o sal no lugar dito por Justin.

Era tão complicado segurar as pontas sozinha... Mas de qualquer jeito, um dia eu teria que enfrentar aquilo. Eles.

Primeiro e respirei fundo e dei o primeiro passo. Foi um longo tempo até o segundo. Tentei pensar em algo que não combinasse com o medo, e tudo que surgiu na minha cabeça foi a lembrança de quando fui ao parque de diversões pela primeira vez.

Agachei-me, perto do tapete, tentando prender a sensação da lembrança em todas as farpas que se escondiam dentro de mim. Foi infinitamente trabalhoso me concentrar com o aumento das batidas no sótão e ainda mais tendo que deixar meus olhos abaixados, perto do sal e do chão. Era impossível obrigar-me a ficar calma.

Por fim, eu peguei um punhado de sal e saí jogando com leveza na extensão da porta, em horizontal. Justin me dissera que aquilo impediria os espíritos de passarem para a parte de dentro do meu quarto. Pela porta.

Ele não me indicaria nada. Nenhuma solução temporária. Só me mandaria ficar em alerta. Bem, mas depois que eu mostrei a ele a marca já quase transparente da mão de Sofia em meu antebraço, suas idéias germinaram com mais otimismo. Pude notar. Era “ruim” mas era “bom”...

“Faça exatamente o que eu disser...”

Justin explicou:

Ruim: era ruim pelo fato de eu tê-los fortalecido tanto, a ponto de criarem energia vital para quase conseguirem se materializar, podendo, assim, machucar-me se desejassem.

Bom: era bom por que agora seria mais difícil se esconderem, ou manterem-se perto demais com tanta energia. Se eu parasse de tomar os remédios, poderia cortar a fonte, deixá-los daquele jeito, sem mais nem menos força. A porta, mesmo trancada, era o meio mais fácil de entrarem e... Bom, você já sabe.

A chave de tudo eram os remédios. Tinha que deixá-los de lado. Eles já haviam feito o suficiente por mim...

Poderia também, só por mais precaução, colocar sal no rodapé de todo o quarto, assim teria uma maior proteção. Mas não, não daria certo... eles arrumariam um jeito de me atrapalhar.

...

Já havia colocado todo o sal. Foi quando algo rangeu, era o som de uma porta se abrindo.

Eu não fiquei para ver quem era, me joguei para dentro do quarto e tranquei a porta com pressa. Estava jogada no chão e ouvi algo chiar do lado de fora. Pensei em olhar pela fenda em baixo da porta, mas me contive e sentei-me da beira da cama.

...

Tomei um demorado banho, mergulhando meu corpo na banheira, dentro do calor dos sais e da água. Pensando... Aproveitando a segurança de poder deixar meus olhos fechados por pelo menos dois minutos em paz.

...

Sentei-me na beira da cama e meus olhos pesaram. Estava com muito sono. Foi só o tempo de me deitar e pensar mais um pouco... Não poderia dormir muito. Tinha que estar desperta para quando meu pai chegasse, devia olhar um pouco para ele e tentar protegê-lo também. Mesmo após a tentativa estranha de me envenenar. Mesmo depois de não reconhecê-lo. Sabia que ele ainda estava lá, perdido e assustado dentro de si mesmo. Inconsciente.

Justin me pediu para ficar de olho nele. Como eu, meu pai também poderia estar sendo vítima deles. E bom, eu devia ajudar como pudesse, ainda tendo que preservar a minha vida.

Fechei meus olhos, mas a luz do céu esbranquiçado não me permitiu descansar. Estava ofuscando-me. Cerrei as pálpebras e me levantei. Caminhei até as cortinas e de relance, olhei para o quintal na parte de baixo. Bem ao lado do puteal, era a figura de menininho sem camisa, olhando para minha janela.

Eu estranhei, olhei melhor e percebi que o conhecia. Era o Daniel.

Permaneci olhando para ele por quase vinte segundos. Depois algo bateu com força na porta do meu quarto. Foi quando redirecionei os olhos para a madeira enegrecida e esperei que o pior entrasse e me machucasse.

...

Não veio nada. A batida violenta na porta veio seguida de um silêncio agressivo. Mantive-me enrijecida e muda. Fechei os olhos e respirei fundo: “eles não podem entrar...”.

Voltei meus olhos novamente para o puteal na parte de baixo, tentaria manter algum tipo de contato com Daniel, pedir para que ele ficasse longe da minha casa, para sua própria segurança. No entanto, não o encontrei de primeira, meus reflexos que viram uma silhueta pequena e apressada entrando no meio dos arbustos, em direção ao bosque.

Fiquei na janela por mais tempo, ainda pensando...

“Ele estava fugindo? – Se estava, fugia de quê?.

Depois eu voltei para a cama. Deitei-me e pensei em Justin.

...

Como ele sabia aquelas coisas sobre o sal? Onde ele ia buscar ajuda durante toda aquela tarde?

Meu estômago roncou.

Fome.

Só me veio na cabeça, o gosto do suco de laranja.

O veneno.

Apertei os olhos e tentei dormir.

...

...


terça-feira, 1 de setembro de 2009

Breve......

Ki tal agumas mudanças???
^^

Acho que estamos chegando na reta final do diário.......
Eu desejo muito que todos que o acompanharam tenham gostado.
Agradeço a força dos meus amigos e das pessoas que me ajudaram a fazer isso ir pra frente.

AMO todos vcs!!!! ♥